Artes marciais promovem inclusão social

Poucos meses depois de iniciar sua participação nas aulas de Tae kwon do, Mayra Maico Cruz Akamatsu, uma jovem de 19 anos portadora de Síndrome de Down, apresentou melhoras na coordenação motora e no equilíbrio, sem contar que se mostrou mais segura. As mudanças foram percebidas principalmente pela mãe de Mayra, Margarete Cruz Akamatsu, de 50 anos. “Mayra está mais independente, disposta a me ajudar nas tarefas de casa e mais confiante. Ela aprendeu até a pular, uma ação que a maioria dos portadores de Down não consegue fazer”, disse.
Para Mayra, que há um mês trocou a faixa branca pela amarela – uma evolução técnica no aprendizado do Tae kwon do –, ir à academia também é uma diversão, é ter um espaço para conviver com os amigos de turma. “Gosto muito do Tae kwon do e de todos na aula, que é muito divertida. Quando chega o dia de ir para a academia fico muito feliz”, afirmou. Mayra é uma das cem pessoas atendidas pelo Projeto Karatê e Tae kwon do para Pessoas com Deficiência Intelectual do Instituto Olga Kos de Inclusão Cultural (IOK). O programa visa oferecer oportunidade de acesso ao esporte às pessoas com algum tipo de deficiência intelectual, favorecendo a sua inclusão na sociedade.

Potencial – Segundo a diretora-geral do IOK, Paula Ayub, de 46 anos, o esporte auxilia no crescimento do potencial dos portadores de deficiências e educa para a vida. “Além de estimular o desenvolvimento das capacidades motoras e das habilidades do aluno deficiente, o projeto é uma oportunidade para que eles se relacionem em um ambiente coletivo”, afirmou.
A iniciativa, que conta com o apoio da Lei de Incentivo do Ministério do Esporte e o patrocínio de empresas, vai comemorar, no sábado, o primeiro ano de bons resultados. Haverá um evento de comemoração e encerramento do ciclo. “Será um momento de aplaudir e estimular as transformações vividas por cada aluno, com a troca de faixa, e de agradecer os parceiros de um projeto bem-sucedido”, disse.

Disciplina – As atividades do projeto são oferecidas gratuitamente a crianças, jovens e adultos e acontecem duas vezes por semana em duas academias parceiras do IOK. As aulas de Karatê são realizadas na academia da Associação Ken In Kan, no bairro do Ipiranga. Já as atividades de Tae kwon do são na Academia Lira Tae Kwon-Do Clube, em Diadema, na região do ABC Paulista. São duas turmas com 50 praticantes cada, com idades que vão dos 4 aos 46 anos.
Antes de iniciar a atividade, o aluno passa por avaliações médicas e recebe o material de apoio e o quimono. Tudo é fornecido gratuitamente pelo projeto. Para ingressar no programa é necessário estar associado a algum tipo de instituição. As mesmas aulas são oferecidas a crianças carentes dos bairros onde as academias estão sediadas.
Autonomia – As turmas são acompanhadas por uma equipe multidisciplinar de profissionais especializados em artes marciais, educação física e psicologia. De acordo com José Roberto de Lira, de 51 anos, responsável pela academia de Tae kwon do, o aprendizado da arte marcial traz inúmeros benefícios para o aluno, e um deles é a autonomia. “Em três meses de exercícios, baseados nas regras da modalidade, passamos a vê-los com melhores condições físicas, mais concentrados e com maior autonomia. Até fiquei surpreso com o grupo. As mudanças aconteceram mais rápido do que esperávamos”, afirmou.

“A integração entre os alunos é outro ganho importante”, completou Paula. Mais de 80% dos atendidos do programa têm alguma deficiência, como a de Mayra. “No Tae kwon do temos também alunos com paralisia cerebral, autismo e outras síndromes”, informou Lira.Custo – Nesse primeiro ano, o custo do projeto ficou em torno de R$ 400 mil. Além da academias, o programa teve o patrocínio de oito empresas e a parceria de 15 instituições. “É gratificante poder proporcionar o resgate da cidadania a pessoas com alguma deficiência intelectual. Hoje estamos comemorando um ano do programa e vamos dar continuidade. A ideia é ampliar as ações e, para isso, vamos buscar mais parcerias”, ressaltou a vice-presidente do instituto, Olga Kos, de 58 anos.
Depois de um ano de disciplinas, memorização de frases em japonês e muito esforço, as duas turmas vão se encontrar no evento de encerramento do primeiro ano do projeto, sábado, no Ginásio Esportivo Mané Garrincha, no Ibirapuera, a partir das 10h. Além de familiares, equipes e patrocinadores, a comemoração deverá contar com as presenças do secretário municipal de esportes, Walter Feldman, e do Ministro do Esporte, Orlando Silva. “A comemoração e a apresentação da troca de faixas desses alunos será como um reconhecimento público por seus esforços e pela coragem na busca da inclusão na sociedade”, concluiu Paula.
IOK tem mais dois programas

Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip), o Instituto Olga Kos de Inclusão Cultural (IOK), fundado em 2007, tem como missão ampliar o acesso da população brasileira à cultura, principalmente para as pessoas com deficiência intelectual, promovendo a sua inclusão. A entidade atua com mais dois programas: o Resgatando Cultura e o Pintou a Síndrome do Respeito. Em dois anos de vida, o IOK já atendeu mais de 500 pessoas. Cerca de 90% do custo total de seus programas são patrocinados por meio de Leis de Incentivo Fiscal.Dados de 2008 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE) mostram que no Brasil, mais de 3,6 milhões de pessoas têm algum tipo de deficiência intelectual. Somente na cidade de São Paulo, o índice de pessoas com algum tipo de deficiência (intelectual, motora, visual ou auditiva), representa 10% da população. Desse número, 1,26% diz respeito a pessoas com deficiência intelectual.





